Maria acordou e seu coelho estava
morto. Maria olhou para seu coelho dentro da gaiola. Seu coelho branco,
branquinho, cor da neve da TV. Seu primeiro animalzinho de estimação. Maria
queria um cachorro, mas cachorros faziam muita bagunça e sua mãe não gostava
muito de cachorros. Nem de gatos. Gatos e cachorros soltam muitos pelo e ficam
soltos fazendo bagunça, defecam em qualquer lugar, deixam tudo fedendo. Não, a
mãe de Maria, definitivamente, não gostava de cachorros. Então, no sétimo
aniversário de Maria, a mãe de Maria decidiu presenteá-la com um coelho. Um coelhinho
branco. Um coelhinho fofinho, que lembra a neve, que não faz barulho, que
defeca bolinhas, que é tímido e não faz nada e come cenourinhas. Mas agora,
Maria olhava para o coelho, que estava morto. Ela sabia que o coelho estava
morto porque ele não se mexia. Ela aprendeu que seres vivos que param de se
mexer estão mortos, que é o ciclo da vida, o maldito ciclo da vida, que mata as
pessoas e os seres vivos e o coelho branco de Maria, que não tinha um nome.
Tadinho, morrera indigente, pensou Maria. Indigente, onde eu aprendi essa
palavra, pensou Maria. Devia ser no jornal ou na novela. Aqueles negros mortos.
Maria também descobriu que existem negros, negros mortos, todos os dias, nas
favelas, nas ruas, que a polícia malvada matava. Ela se lembrou da notícia dos
cinco jovens negros que foram baleados em um carro, sem querer. Baleados... Mas
a mãe disse, eles não morreram sem querer, eles morreram porque a polícia é
preconceituosa e não gosta de negros. Mãe, o que é preconceito. É quando você
não gosta de alguém que é diferente de você. Mãe, o que é negro? Negro são as pessoas
que têm a pele escura, mais marrom, sabe? Tipo o Rafinha. Ah, o Rafinha, eu
gosto muito dele, mãe, ele não é diferente de mim, ele brinca de tudo comigo,
mãe. Ele vai morrer só porque a pele dele é escura? Os olhos de Maria se encheram
de lágrimas e ela começou a imaginar o Rafinha morto, todo ensanguentado, cheio
de buracos, dentro de um carro, cheio de buracos, morto, com os olhos abertos
olhando para ela e pedindo socorro e com muito medo e ela agarrou o colo da mãe
e começou a chorar na camisa, na barriga quentinha da mãe gritando, eu não
quero que o Rafinha morra, mãe! Ele é a pessoa mais legal de todo o colégio!
Ele não pode morrer! Os policiais que têm que morrer! Eu odeio todos os
policiais, mãe! Eles têm todos que morrer dentro do carro cheio de sangue não o
Rafinha, mãe! Ela já sabia o que era sangue e um corpo de negro sangrando e era
uma imagem horrível, mas os policiais mortos era uma imagem quase feliz para
Maria. A mãe de Maria a abraçou e disse, Maria, você precisa fazer o bem sempre
e não deixar ninguém morrer. As pessoas vão parar de morrer quando você começar
a amar as pessoas, Maria. Porque só o amor pode salvar, sabe? Sabe por que? Por
quê? Por que, Maria, imagina, você me ama, não ama? Amo. Você ama sua irmã?
Amo. Você ama seu coelhinho? Amo. Você ama o Rafinha? Acho que sim mãe, eu
gosto muito dele, ele não ri de mim e brinca comigo sempre. Então você ama o
Rafinha, Maria. Amar é gostar muito de alguém, muito mesmo e sentir muito medo
de perder essa pessoa e não querer nunca, nunca que ela se vá, sabe Maria? Por
isso que é importante amar. Porque você vai fazer de tudo para que essa pessoa
nunca se vá, ou que ela seja feliz. Amar é querer que a pessoa seja sempre
feliz. Imagina um mundo onde todo mundo é feliz, Maria. Imagina. Se esse mundo
um dia acontecer, ninguém nunca mais vai morrer, não assim, de ódio dos outros,
é sempre importante ensinar as pessoas a amarem, que nem eu estou fazendo
contigo, Maria, porque eu te amo muito e você é minha princesinha. E é preciso
amar também e construir um mundo só de amor. E então Maria disse, Mãe, eu vou
amar todo mundo para sempre, tá? Daí Maria imaginou sua mãe e sua irmã mortas
em um carro todas ensanguentadas e cheias de buracos e ela chorou de novo. Mãe!
Mãe! Você e Alice têm que viver para sempre, Mãe! Meu peito dói muito, Mãe! Eu
não quero que vocês morram, Mãe! E chorava e chorava e são mãe deu um abraço
muito apertado. Maria, a gente não vai morrer nunca porque a gente ama muito
você.
Mas, agora, Maria acordou para
dar bom dia para seu coelhinho. Ela levantou da cama, calçou suas pantufas
quentinhas, abriu a janela um pouquinho para não acordar Alice. Ela tinha medo
de acordar Alice, que dormia do outro lado do quarto. Alice tinha aquela coisa,
ela gritava e não ia para a escola. Alice era tão bonita enquanto dormia. As
duas eram tão parecidas. Mas a cabeça de Alice era um pouquinho diferente,
disse sua mãe uma vez. Alice ela tem um mundo só dela, mas um dia Alice vai
para a escola. Alice sentava na mesa de jantar e demorava para comer. Às vezes
Maria ajudava. Ela conversava com Alice, que demorava um pouquinho para
responder as coisas. Alice não conseguia falar direito, mas é porque na cabeça
dela acontecia outra coisa e ela, às vezes, só ficava parada olhando para o
nada. Olhando. Maria não via. Mas amava Alice. Só tinha medo de acordar Alice
que sempre acordava gritando, assustada e sua mãe vinha correndo ajudar. Maria
quase sempre chorava de susto porque tinha medo sabe, da Alice.
Mas, então, Maria abriu só um pouquinho a
cortina para ver seu coelhinho e dar bom dia para ele. Entrou um pouquinho de
luz que iluminou a gaiola. O coelhinho estava ali parado, deitadinho, devia
estar dormindo. Alice foi devagarzinho, nas pontas dos pés, prendendo a
respiração. Abriu a portinha da gaiola e disse, bem baixinho, bom dia. Esperou.
Nada. Coelhinho, acorda seu safadinho. Acorda. Oi, oi. Vem aqui. Ei. Cutucou o
coelho e nada. Cutucou de novo e nada. Coelho, coelho, coelho! Mãe! Mãe! O coelho
de Maria estava morto. Seu peito, seu peito. Sua garganta. Seu ar. Aquilo não
podia acontecer. A imagem dos negros mortos, e do Rafinha e de sua mãe e de
Alice Não. Não! Meu coelhinho, meu coelhinho. Mãe! Meu coelhinho! Mãe! Mãe!
Gritos de Alice.