quinta-feira, 7 de julho de 2016

1. Maria acordou e seu coelho estava morto

Maria acordou e seu coelho estava morto. Maria olhou para seu coelho dentro da gaiola. Seu coelho branco, branquinho, cor da neve da TV. Seu primeiro animalzinho de estimação. Maria queria um cachorro, mas cachorros faziam muita bagunça e sua mãe não gostava muito de cachorros. Nem de gatos. Gatos e cachorros soltam muitos pelo e ficam soltos fazendo bagunça, defecam em qualquer lugar, deixam tudo fedendo. Não, a mãe de Maria, definitivamente, não gostava de cachorros. Então, no sétimo aniversário de Maria, a mãe de Maria decidiu presenteá-la com um coelho. Um coelhinho branco. Um coelhinho fofinho, que lembra a neve, que não faz barulho, que defeca bolinhas, que é tímido e não faz nada e come cenourinhas. Mas agora, Maria olhava para o coelho, que estava morto. Ela sabia que o coelho estava morto porque ele não se mexia. Ela aprendeu que seres vivos que param de se mexer estão mortos, que é o ciclo da vida, o maldito ciclo da vida, que mata as pessoas e os seres vivos e o coelho branco de Maria, que não tinha um nome. Tadinho, morrera indigente, pensou Maria. Indigente, onde eu aprendi essa palavra, pensou Maria. Devia ser no jornal ou na novela. Aqueles negros mortos. Maria também descobriu que existem negros, negros mortos, todos os dias, nas favelas, nas ruas, que a polícia malvada matava. Ela se lembrou da notícia dos cinco jovens negros que foram baleados em um carro, sem querer. Baleados... Mas a mãe disse, eles não morreram sem querer, eles morreram porque a polícia é preconceituosa e não gosta de negros. Mãe, o que é preconceito. É quando você não gosta de alguém que é diferente de você. Mãe, o que é negro? Negro são as pessoas que têm a pele escura, mais marrom, sabe? Tipo o Rafinha. Ah, o Rafinha, eu gosto muito dele, mãe, ele não é diferente de mim, ele brinca de tudo comigo, mãe. Ele vai morrer só porque a pele dele é escura? Os olhos de Maria se encheram de lágrimas e ela começou a imaginar o Rafinha morto, todo ensanguentado, cheio de buracos, dentro de um carro, cheio de buracos, morto, com os olhos abertos olhando para ela e pedindo socorro e com muito medo e ela agarrou o colo da mãe e começou a chorar na camisa, na barriga quentinha da mãe gritando, eu não quero que o Rafinha morra, mãe! Ele é a pessoa mais legal de todo o colégio! Ele não pode morrer! Os policiais que têm que morrer! Eu odeio todos os policiais, mãe! Eles têm todos que morrer dentro do carro cheio de sangue não o Rafinha, mãe! Ela já sabia o que era sangue e um corpo de negro sangrando e era uma imagem horrível, mas os policiais mortos era uma imagem quase feliz para Maria. A mãe de Maria a abraçou e disse, Maria, você precisa fazer o bem sempre e não deixar ninguém morrer. As pessoas vão parar de morrer quando você começar a amar as pessoas, Maria. Porque só o amor pode salvar, sabe? Sabe por que? Por quê? Por que, Maria, imagina, você me ama, não ama? Amo. Você ama sua irmã? Amo. Você ama seu coelhinho? Amo. Você ama o Rafinha? Acho que sim mãe, eu gosto muito dele, ele não ri de mim e brinca comigo sempre. Então você ama o Rafinha, Maria. Amar é gostar muito de alguém, muito mesmo e sentir muito medo de perder essa pessoa e não querer nunca, nunca que ela se vá, sabe Maria? Por isso que é importante amar. Porque você vai fazer de tudo para que essa pessoa nunca se vá, ou que ela seja feliz. Amar é querer que a pessoa seja sempre feliz. Imagina um mundo onde todo mundo é feliz, Maria. Imagina. Se esse mundo um dia acontecer, ninguém nunca mais vai morrer, não assim, de ódio dos outros, é sempre importante ensinar as pessoas a amarem, que nem eu estou fazendo contigo, Maria, porque eu te amo muito e você é minha princesinha. E é preciso amar também e construir um mundo só de amor. E então Maria disse, Mãe, eu vou amar todo mundo para sempre, tá? Daí Maria imaginou sua mãe e sua irmã mortas em um carro todas ensanguentadas e cheias de buracos e ela chorou de novo. Mãe! Mãe! Você e Alice têm que viver para sempre, Mãe! Meu peito dói muito, Mãe! Eu não quero que vocês morram, Mãe! E chorava e chorava e são mãe deu um abraço muito apertado. Maria, a gente não vai morrer nunca porque a gente ama muito você.

Mas, agora, Maria acordou para dar bom dia para seu coelhinho. Ela levantou da cama, calçou suas pantufas quentinhas, abriu a janela um pouquinho para não acordar Alice. Ela tinha medo de acordar Alice, que dormia do outro lado do quarto. Alice tinha aquela coisa, ela gritava e não ia para a escola. Alice era tão bonita enquanto dormia. As duas eram tão parecidas. Mas a cabeça de Alice era um pouquinho diferente, disse sua mãe uma vez. Alice ela tem um mundo só dela, mas um dia Alice vai para a escola. Alice sentava na mesa de jantar e demorava para comer. Às vezes Maria ajudava. Ela conversava com Alice, que demorava um pouquinho para responder as coisas. Alice não conseguia falar direito, mas é porque na cabeça dela acontecia outra coisa e ela, às vezes, só ficava parada olhando para o nada. Olhando. Maria não via. Mas amava Alice. Só tinha medo de acordar Alice que sempre acordava gritando, assustada e sua mãe vinha correndo ajudar. Maria quase sempre chorava de susto porque tinha medo sabe, da Alice.


 Mas, então, Maria abriu só um pouquinho a cortina para ver seu coelhinho e dar bom dia para ele. Entrou um pouquinho de luz que iluminou a gaiola. O coelhinho estava ali parado, deitadinho, devia estar dormindo. Alice foi devagarzinho, nas pontas dos pés, prendendo a respiração. Abriu a portinha da gaiola e disse, bem baixinho, bom dia. Esperou. Nada. Coelhinho, acorda seu safadinho. Acorda. Oi, oi. Vem aqui. Ei. Cutucou o coelho e nada. Cutucou de novo e nada. Coelho, coelho, coelho! Mãe! Mãe! O coelho de Maria estava morto. Seu peito, seu peito. Sua garganta. Seu ar. Aquilo não podia acontecer. A imagem dos negros mortos, e do Rafinha e de sua mãe e de Alice Não. Não! Meu coelhinho, meu coelhinho. Mãe! Meu coelhinho! Mãe! Mãe! Gritos de Alice.

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